Modelo Multivariado Explicativo da Sintomatologia da Perturbação de Stresse Pós-traumático em Vítimas de Violência nas Relações de Intimidade: memórias emocionais de experiências precoces, emoções autoconscientes e dissociação peritraumática
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Data
2026-07
Autores
Fortuna, Margarida de Oliveira
Carvalho, Teresa (Orientadora)
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ISMT
Resumo
Introdução: A violência nas relações de intimidade (VRI) representa um problema de saúde pública mundial devido à sua elevada prevalência e sérias consequências a nível mental e físico. A perturbação de stresse pós-traumático (PTSD) é frequente em vítimas de VRI, exigindo estratégias preventivas e tratamentos eficazes. Objetivos: Desenvolver e analisar um modelo multidimensional explicativo da sintomatologia da PTSD em vítimas de VRI, considerando os seguintes potenciais preditores: memórias emocionais de ameaça, submissão e desvalorização na relação com pais/cuidadores durante a infância/adolescência, traços de vergonha e de culpa generalizadas, traços de vergonha externa e interna, frequência dos estados de vergonha e de culpa durante as experiências de VRI (emoções autoconscientes), falta de consciência e despersonalização/desrealização peritraumáticas. Método: Estudo transversal com duas amostras independentes não-probabilísticas de adultos recrutados na comunidade portuguesa, equiparadas em idade, escolaridade e sexo biológico e compostas por 193 vítimas de VRI e 204 participantes sem experiências de VRI. Foram administrados instrumentos de autorresposta. Resultados: As vítimas de VRI diferenciaram-se dos participantes sem VRI, relativamente à sintomatologia da PTSD e à totalidade dos seus potenciais preditores, exceto em relação às memórias de subordinação precoce, tendo estas sido excluídas do modelo de regressão linear múltipla (RLM). Nas vítimas de VRI, a idade e os potenciais preditores anteriormente selecionados correlacionaram-se com os sintomas da PTSD. Foram eliminadas as memórias de subordinação, os traços de culpa generalizada e de culpa interna e a falta de consciência peritraumática por terem apresentado coeficientes de correlação indicadores de colineariedade. Idade, memórias de ameaça precoce, traço de culpa generalizada, traço de vergonha interna, frequência dos estados de vergonha durante as experiências de VRI e desrealização/despersonalização peritraumática predisseram individualmente os sintomas da PTSD, tendo sido selecionadas como covariáveis da RLM. Este modelo explicou 48% da variância total dos sintomas da PTSD e mostrou que maiores valores de memórias de ameaça precoce, de traço de culpa generalizada, de traço de vergonha interna e de despersonalização/desrealização peritraumática, explicaram significativamente maior sintomatologia da PTSD em vítimas de VRI. Discussão: Os resultados forneceram evidências para a clínica e para a investigação sobre a relevância de considerar o efeito explicativo conjunto das memórias de ameaça precoce na relação com os pais/cuidadores, do traço de culpa generalizada, do traço de vergonha interna e dos estados de despersonalização/desrealização peritraumática na presença de sintomas da PTSD em vítimas de VRI. | Introduction: Intimate partner violence (IPV) represents a global public health problem due to its high prevalence and serious mental and physical consequences. Post-traumatic stress disorder (PTSD) is frequent among IPV victims, requiring effective preventive strategies and treatments. Objectives: To develop and analyze an explanatory multidimensional model of PTSD symptomatology in IPV victims, considering the following potential predictors: emotional memories of threat, submissiveness, and devaluation in the relationship with parents/caregivers during childhood/adolescence; generalized shame and guilt traits; external and internal shame traits; frequency of shame and guilt states during IPV experiences (self-conscious emotions); and peritraumatic lack of awareness and depersonalization/derealization. Method: A cross-sectional study was conducted with two independent, non-probabilistic samples of adults recruited from the Portuguese community, matched for age, education, and biological sex, consisting of 193 IPV victims and 204 participants without IPV experiences. Self-report instruments were administered. Results: IPV victims differed from participants without IPV regarding PTSD symptomatology and all its potential predictors, except for early memories of subordination, which were excluded from the multiple linear regression (MLR) model. In IPV victims, age and the previously selected potential predictors correlated with PTSD symptoms. Early memories of subordination, generalized guilt and internal guilt traits, and peritraumatic lack of awareness were eliminated due to correlation coefficients indicating collinearity. Age, early memories of threat, generalized guilt trait, internal shame trait, frequency of shame states during IPV experiences, and peritraumatic derealization/depersonalization individually predicted PTSD symptoms and were selected as covariates for the MLR. This model explained 48% of the total variance in PTSD symptoms and showed that higher values of early memories of threat, generalized guilt trait, internal shame trait, and peritraumatic depersonalization/derealization significantly explained greater PTSD symptomatology. Discussion: The results provided clinical and research evidence regarding the relevance of considering the joint explanatory effect of early memories of threat in the relationship with parents/caregivers, generalized guilt trait, internal shame trait, and peritraumatic depersonalization/derealization states in the presence of PTSD symptoms among IPV victims.